domingo, outubro 15, 2017

Guardando lugar no mês de outubro...

quarta-feira, setembro 20, 2017

Ariano Suassuna vive!

Depois que acabei de falar sobre a poesia de Ariano Suassuna na Academia Pernambucana de Letras, em agosto passado, aproximou-se de mim uma figura de cara confiável de que gostei de imediato e que me fez a proposta, quase indecente a esta altura do ano, por causa da demanda de atividades de professora de cursos preparatórios para o vestibular em que trabalho, de ir a Limoeiro, dar uma palestra sobre o autor. Eu lhe disse que iria, claro, mas pensei que a história se perderia no meio do caminho e que o convite terminaria dando chabu. Não foi o que aconteceu: algumas semanas depois, Fábio André de Andrade Silva, limoeirense da gema, me liga, se apresenta de novo mais formalmente, com a delicadeza que me parece ser sua mais forte característica e me esclarece que tudo já estava arrumado para a minha ida àquela cidade.
        Nem sei direito como ele conseguiu, nestes tempos brabos, viabilizar minha viagem: acho que ela foi uma junção de ajudas, e o que entendi depois foi que meu novo amigo fez das tripas coração e, assim coraçãomente, como diz João Guimarães Rosa, terminou por concretizá-la. Não sei como foi, só sei que foi assim. Declaro a quem interessar possa que Fábio, inclusive, cuidou para que viesse, num carro da Secretaria de Educação, um motorista em especial que tinha trabalhado com meu primo Sérgio, filho de tio Saulo.  Ambos já partiram, mas foram revisitados, na ocasião do trajeto, nas suas histórias e jeitos de ser.
       Assim que cheguei, visitei o simpático prédio da GRE (acho que a acolhida do pessoal foi que me deu a sensação boa e fresca que senti) e, em seguida, fui entrevistada na Rádio Jornal Limoeiro e na Rádio Cultural FM. Daí fomos ao Galpão das Artes, o primeiro presente que Fábio e seus amigos me deram nesse fim de semana especial que tive o privilégio de ter: um lugar lindo, que abriga um palco, onde estava exposto o figurino de uma peça teatral; uma espécie de museu de brinquedos populares de madeira e outros materiais; e até uma galeria de artes plásticas, com quadros que, perfeitamente, combinavam com o ambiente. Tudo estava tão fiel às ideias defendidas por meu tio Ariano Suassuna, que tive vontade de me ajoelhar ali mesmo, diante daquele altar que o reverenciava de modo tão perfeito, para agradecer a compreensão pertinente e a abertura que o grupo tinha tido para o seu universo conceitual e simbólico. Não o fiz, é verdade, mas o que senti deve ter sido percebido – fiquei tão emocionada que Fábio teve que me ajudar a subir no palco, porque eu quis ver de perto os detalhes das roupas expostas, enquanto ele me contava que tudo aquilo tinha sido confeccionado com material doado numa campanha que arrecadara mantas, fuxicos e colchas de retalhos, tudo usado, mas em bom estado, e tinha, digamos assim, sido reciclado e ressignificado naquele deslumbrante e assombroso guarda-roupa que estava ali exposto.
        Senti, de forma tão forte, a presença do meu tio querido em tudo aquilo, que não tenho palavras para agradecer ao grupo, nem para descrever a diversidade de sentimentos que me povoaram. Não é todo dia que a gente vê sentido na vida: vi naquele lugar e, principalmente, nas pessoas que o formam (que um lugar não é nada sem pessoas) uma extensão das ações e das ideias de Ariano. E ali mesmo o imaginei descansado de sua luta, olhando lá de cima aquilo tudo através dos meus olhos, satisfeito com o resultado que se mostrava devagar.
         Depois do almoço começamos a executar a primeira parte do nosso programa central que consistiu na tal palestra que ministrei. Confesso que fiquei com vergonha da apresentação que tinha preparado, porque todos ali pareciam entender Ariano tanto quanto eu. Depois da palestra, fui compreendendo, aos poucos, o que, de verdade, fui fazer ali: lembrar a eles que “difícil” não significa “impossível” e que há um sentido bonito na luta que eles travam para fazer o que fazem.
         À noite tive o privilégio de ver o ensaio geral do primeiro ato – o grupo costuma encenar um ato de cada vez – da peça “A farsa da boa preguiça”, de Ariano Suassuna, com a direção de Charlon de Oliveira Cabral. Na frente de uma igrejinha linda, com bandeirinhas e tudo, num perfeito cenário interiorano que estava de novo a cara de Ariano, pude testemunhar o trabalho sério, o esforço desprendido e adivinhar os cansativos ensaios e os desânimos e as motivações que tinham levado todos nós até aquele pátio, onde se descortinou de novo para mim o sonho de Ariano de realizar um teatro entre erudito e popular, que pudesse dar emoção e riso a pessoas desprovidas de renda e de acesso à cultura e que, enfim, teriam sua festa na vida difícil que vivem. Não sou crítica de teatro, mas acho que posso destacar o trabalho de corpo; a movimentação dos atores, apesar de não haver o palco, que os limitaria melhor; a prontidão das respostas engraçadíssimas às intervenções da plateia que todo teatro de rua exige; a coragem necessária para um trabalho assim tão distante daquele a que a maioria das pessoas está acostumada... Ri tanto que alguém chegou a perguntar se eu tinha sido paga para tal, a fim de puxar o riso da plateia. Na verdade, eu estava feliz de ver como meu tio está vivo naquelas pessoas...
       Portanto, eu queria agradecer a todas elas: por fazerem de suas vidas um laboratório de ressurreição de Ariano e por permanecerem firmes, apesar das dificuldades, ofertando àquelas pessoas não só lazer, mas também cultura. Lá de cima, ao lado de Compadecida, Ariano deve estar feliz e satisfeito. Ele manda dizer que esses tempos de trevas passarão, e que nós estamos no caminho certo.

segunda-feira, agosto 14, 2017

Segunda resposta

Tive acesso, ontem, pelo Whatsapp, a uma argumentação de Flávio Brayner. Intitulado “No escuro e sem corrimão”, o texto de sua autoria era datado de 15/08/2017 e me chegou com uma espécie de epígrafe, que dizia: “Ele disse tudo!!!”. Como acho que nunca a gente consegue dizer tudo, queria acrescentar algumas ideias à discussão que o texto inaugura.
Na verdade, ele é uma réplica a uma entrevista anterior de Sílvio Meira ao Jornal do Commercio, em que o empreendedor, à medida que se apresenta, defende ideias para a educação brasileira. Ouvi com cuidado tudo o que foi dito na entrevista e me impressionei com dois fatos: não consegui ouvir as entrevistadoras Luíza Freitas e Margarida Azevedo, e as ideias do entrevistado já estão sendo postas em prática.
A partir desses fatos, comecei a pensar e a registrar ideias. A primeira que me veio foi a de como estamos todos seduzidos pela sereia da simplificação e da uniformização. O empreendedor começa a sua fala dizendo que “o único fundamento” da educação seria que as pessoas devem aprender na escola as bases para continuar aprendendo. Em seguida, começa a listar tais bases: língua portuguesa, lógica e matemática abstrata binária e executável (“não aprender a programar é mortal”, ele diz) e línguas estrangeiras (ele aponta inglês e mandarim, para se fazerem negócios). Depois, começa a explicar o que já se está fazendo aqui em Pernambuco: a partir de ‘games’, os quais têm ligação direta com o aprendizado de física, música, biologia e ‘design’, pretende-se ensinar os alunos a executarem uma profissão que contribua com a economia. Citando experiências de países como Finlândia, Coreia do Sul, Inglaterra e Alemanha, defende que todos devemos estudar programação de computadores e assuntos técnicos, porque “o mundo é uma sequência infinita de boletos”, e existimos para pagá-los. Depois resume: a escola deve ensinar “a mesma coisa, o tempo todo, para todo mundo”. Inclusive elogia países cujos governos pagam os estudos de ciência, tecnologia e engenharia e não os de filosofia, história, educação e psicologia. Em outras palavras: daríamos ao governo (ou seria ao Estado?) o extremo poder de definir o que seria prioritário em educação, dentro da lógica apenas produtiva e competitiva.
Rubem Braga tem uma crônica linda – a que já me referi uma vez em meus escritos – chamada “Recado ao Senhor 903”, na qual ele pede desculpas ao morador de seu prédio que reclamara do barulho de sua máquina de escrever. Ele não sabe o nome da pessoa, por isso a chama de Senhor 903 e, daí em diante, vai desfilando uma sequência de números relativos ao apartamento em que mora, à hora em que se tem de parar de fazer barulho, ao ônibus que toma, ao número do prédio e da sala em que trabalha... E acrescenta: “nossa vida, vizinho, está toda numerada; e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas – e prometo silêncio. Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo...”.
Essa frase última me persegue, porque um dos dias mais importantes de minha vida foi quando Germana (que não era minha professora, mas uma tia que tinha estudado Filosofia, apesar de ser funcionária do INSS), com quem muito conversava e que participou de minha formação intelectual, me explicou como Platão pensava. Foi como um raio! Tudo ficou claro para mim! Eu me reconheci naquelas palavras conotativas que falavam de um mundo possível mais verdadeiro, mais justo, mais igualitário... Desde então, minha vida tem sido imaginar como o mundo pode ser diferente do que é e escrever... E, recentemente, algo se colou a essa compreensão: o fato de ter lido um pequeno e significativo poema de Fernando Birri que dizia que a utopia serve para isto: para ajudar a caminhar...  Ganhei quase nada com o que escrevo, mas escrevo bastante, com medo da parábola dos talentos – uma história bíblica que fala que Deus perguntará a cada um de nós o que fizemos com os talentos que nos deu.
Quando vou me explicar, narro um episódio antigo que me aconteceu ainda no ginásio, como se chamava o que hoje identificamos como fundamental 2: uma freira da escola em que estudei queria que classificássemos orações coordenadas e subordinadas num texto de José de Alencar, mas eu me desliguei totalmente do objetivo dela e me perdi nas palavras maviosas do autor. Até hoje sei de cor o texto (que adoro recitar para os meus alunos), além de ter me tornado uma professora de português e uma escritora intermitente. O que quero dizer é que a escola não faz de nós o que somos; ela apenas dá umas ferramentas (algumas quebradas) e nós é que nos viramos no mundo e na vida afora. Ou não: infelizmente, muitos de nós, por questões políticas, sociais, familiares, individuais... ficam pelo caminho, amargando pobrezas e infelicidades de toda sorte ou azar. Não foi o aprendizado da lógica binária que fez de mim o que sou, foi o caminho que esse texto me indicou. E que indicou a mim, mas não à grande maioria de minhas amigas de classe, que se tornaram professoras, funcionárias públicas, atrizes, médicas, donas de casa, engenheiras... Precisamos de vários caminhos, porque somos diferentes uns dos outros e, portanto, queremos coisas diferentes e gostamos de coisas diferentes... E fazemos para nós caminhos diferentes... E o sucesso é um substantivo masculino (no sentido de que homens são executores mais eficientes do seu significado, até porque foi deles cobrado muito mais do que de nós, mulheres) e plural (no de que é preciso ver outros sentidos que também são válidos para entender a palavra). Ou seja: por motivos espirituais, não econômicos, escrevo sem ganhar nada. Apesar disso, pago os boletos de minha vida, exercendo uma profissão que sequer foi citada na explanação do empreendedor...
Eu poderia ter ficado feliz com a ideia de Sílvio Meira de que se deve ensinar a língua. Mas não sou idiota: sei que ele não contempla a matéria que leciono – história da literatura. Nem linguistas consideram isso importante, só eu mesma, a esta altura. Na verdade, acho que a literatura e a arte não são produzidas para que aprendamos nada. Mas a discussão sobre elas enriqueceu minha vida e minha percepção, e tenho um jeito muito exclusivo de ver o mundo, e talvez seja isso que Sílvio Meira e companhia limitada não queiram: que se formem pessoas capazes de pensar, criticar, refletir sem objetivo prático, a partir do conhecimento da tradição do passado, das experiências registradas de muitas pessoas que criaram um acervo de visões, de saberes, de sentires, de sonhos, de interpretações que são como uma bússola que nos guia para um futuro “que fala a nossa língua”, como diz Mia Couto. Em outras palavras: nenhum conhecimento é gerado fora de um contexto cultural e ambiental – o que é bom para um país africano não é bom para o Brasil; o que é bom para o Japão (país citado por Brayner e que tem índices horripilantes de suicídio de jovens, em virtude do seu projeto educacional acachapante) não é bom para o Brasil.
As ciências humanas não podem ser ensinadas por quem não se identifica com elas e há perguntas que não são respondíveis pela matemática. Meus alunos, quando estou em horário de atendimento de dúvidas, por exemplo, me trazem redações para que eu lhes diga como estão seus textos e questões cujas respostas não sabem; porém, às vezes, perguntam-me sobre suas vidas – recentemente, um deles, um pouco mais velho, me pediu que eu dissesse a ele se uma atitude que teve em relação à esposa foi machista. Minha própria terapia, meu amadurecimento e um pequeno conhecimento de psicologia vindo da literatura me foram de grande valia para lhe dar minha resposta, baseada também na história, porque eu conversei com ele sobre os antigos e mais modernos conceitos de homem.  Aliás, a física parece muito prática, mas o estudo dos buracos negros e das galáxias é tão sem pé nem cabeça quanto o das artes, da filosofia e da psicologia. E acho que o exercício da imaginação e do raciocínio abstrato que as ciências humanas permitem aparelharia para esse e outros estudos...
Por último, quero dizer que ninguém do passado imaginou o futuro que fizemos, nem acertou as habilidades e as competências que teríamos de ter para sobreviver hoje; ninguém previu, por exemplo, o tal do computador de que tanto o Meira falou. Em outras palavras: estamos reinventando a nós mesmos, para viver nesse mundo virtual, que é o único que o empreendedor parece ver, como se vivêssemos nele e para ele apenas. No entanto, vivemos para nossos filhos, alunos, irmãos, amantes, amigos, para nós mesmos, para sermos felizes... Para buscar sentidos... saídas... E tudo isso é muito difícil... E precisamos de mais do que matemática binária para fazer das tripas coração e nos refazermos para um mercado inimaginável há dez anos e que nos assombra com suas exigências... E precisamos saber as narrativas que foram escritas com versões e sentidos sobre nosso passado e nosso presente, para que não reinventemos a roda... nem paremos de progredir... Ao contrário: precisamos aperfeiçoar todos os caminhos para que escolhamos viver, sem falha na esperança, essa vida cujo sentido é não dado mas construído. Não na matemática, mas a partir de um calidoscópio de saberes, nenhum descartável, principalmente no nosso país, cuja diversidade não existe em nenhum outro e precisa de expressão.
Guimarães Rosa tem uma frase que me ajuda a terminar este texto difícil: “uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...”. Ela nos obriga a prestar atenção ao fato de que as pessoas têm seus tempos e seus espaços (Joinville não é igual a Taperoá) e não são facilmente cabíveis no plano único que Sílvio Meira propõe (“a gente pega as melhores práticas, ‘reseta’ o sistema, levanta a barra de nível e exige que todo mundo passe para o próximo nível”). Ela nos desvela as nossas complexidades. Ela nos ensina a ir em frente, sem abrir mão de nós mesmos. Ela nos fala de como é difícil seguir de mãos dadas... Mas difícil não é impossível...

quinta-feira, julho 20, 2017

Guardando lugar no mês de julho...

domingo, junho 18, 2017

Palestra na Academia Pernambucana de Letras



ENCONTRO COM O UNIVERSO SIMBÓLICO DE ARIANO SUASSUNA
  
       Boa tarde a todos. Começo minha fala fazendo agradecimentos: a esta Academia Pernambucana de Letras, em que eu tenho a oportunidade de palestrar pela primeira vez, oficialmente, confessando como estou honrada, feliz e, evidentemente, temerosa, já que estou diante de uma plateia muito diferente daquela a que estou acostumada; à Academia de Estudos Fernando Beltrão, onde trabalho, por ter me liberado para estar aqui no meu horário de expediente; a Isaac Melo, por estar agora me substituindo em sala de aula; e ao próprio Ariano, por ter, digamos, indiretamente (o fato de ser sua sobrinha, provavelmente, influenciou a escolha de meu nome) aberto as portas desta ilustre Casa, a qual comemora, hoje, os 90 anos do autor.
         Escolhi falar da poesia de Ariano Suassuna, por ser ela a parte mais desconhecida de sua obra, embora, em diversas ocasiões, ele próprio tenha afirmado que a sua poesia é o ponto de partida de tudo o que ele escreveu. Vários trabalhos acadêmicos já foram feitos sobre o romance e, principalmente, sobre o teatro do autor, os quais são nacional e internacionalmente conhecidos e apreciados por pessoas de variados níveis culturais. Certa vez, numa entrevista, me perguntaram por que Ariano é tão indistintamente amado, e eu respondi que de forma tão competente tinha ele feito a imbricação do erudito com o popular que as pessoas as quais tiveram o privilégio do acesso aos padrões eruditos de cultura gostavam de Ariano, o mesmo acontecendo com aquelas que, por infelizes questões políticas, econômicas e sociais, não tinham tido essa oportunidade. E até hoje penso isto: todos nos reconhecemos na obra teatral de Ariano, na qual está presente tanto a cultura erudita da tradição clássica europeia, mas, fundamentalmente, ibérica e medieval, quanto a popular brasileira, nascida das adaptações de toda sorte que essa dita cultura da tradição sofreu no ambiente brasileiro.
         De maneira geral, penso que existe, na obra de Ariano, uma “escala” de adensamento: como ele, intuitivamente, notou, as ideias nascem na sua poesia, que é o núcleo duro de seu sentir e do seu pensar. Na verdade, a poesia é, na minha opinião, a tecnologia de ponta de nossa linguagem, a lança que nos auxilia a pensar quando ainda é impossível fazê-lo claramente – seus possíveis lapsos sintáticos, suas suspensões abruptas, suas conotações plurissignificativas nos ajudam a ver o que, antes, nem articulado estava... E, então, o resultado fica lá, à espera de uma análise para posterior e mais fina compreensão. Nesse contexto, digo que Ariano usou sua poesia, conforme ele mesmo disse, como uma “fonte profunda” de tudo o que ele criou em gêneros textuais e não textuais, posteriormente: foi com ela que ele iniciou sua produção literária em 1945, antes, portanto, de sua estreia no teatro.
         Acontece que sua poesia é bem complexa e difícil. Se Ariano fosse só poeta, provavelmente, não teria tido um reconhecimento tão unânime quanto o que teve,ainda em vida, o que é ainda mais difícil.  Em seguida, seu romance inicia esse processo de filtragem da dificuldade da poesia, embora ainda seja mais exigente do que seus textos teatrais. E, por fim, sua dramaturgia entra em cena para tornar as suas ideias mais palatáveis para um número enorme de pessoas: o contato maior do ator e mesmo do autor com o público, a estratégia moderna do uso de uma espécie de narrador nos entreatos, como um mestre de cerimônias do circo, os aspectos visuais do cenário, do figurino e da maquiagem exagerada dos atores, o acolhimento da linguagem informal nordestina nos diálogos ágeis e engraçadíssimos, o suposto primarismo do argumento, nascido do aproveitamento mais hilário de situações cotidianas interioranas, o recurso da religiosidade católica popular, mais próxima do povo e já “traduzida” de seu estofo mais simbólico e transcendente, permitem uma comunicação mais direta de suas ideias e teses.
         Ainda em 1964, no prefácio da peça “Uma mulher vestida de sol”, Ariano se queixava de que só era entendido pela metade e já supõe que, para entendê-lo por inteiro, teríamos que ler a sua poesia, apesar de considerar que ela só tenha sido publicada aqui e ali, em suplementos literários e revistas regionais. Além dessa dificuldade, havia outras: Ariano era um perfeccionista declarado e fazia e refazia sua poesia que, anteriormente, tinha sido publicada em jornais, que são, sem dúvida, naquele momento em especial, um espaço de muitos erros tipográficos. Mas, mesmo os poemas que tinham sido exatamente transcritos dos originais, eram retrabalhados pelo incansável aprimorador que Ariano era, o que pode explicar o adiamento de uma edição final de seus poemas – acho que ele podia, numa poesia não terminada, por não publicada, digamos assim, experimentar novas palavras e novas formas de expressão do que ele podia ou queria dizer, o que não aconteceria se ele tivesse publicado o texto, que restaria condenado ao estatuto das coisas paradas. Isso ratifica, no meu entender, minha opinião de que sua poesia era a argamassa com que ele colou os tijolos de sua obra romanesca e teatral, tanto que ele a publicou por último, quando todos já o amavam incondicionalmente e haviam avançado na compreensão de sua mensagem. Quer dizer: Ariano, consciente ou inconscientemente (não gosto da ideia de que ele não percebia algum viés de sua obra, pois ele era muito perspicaz e dedicado a ela, além de muito focado e inteligentíssimo), continuou trabalhando sua língua particular, aperfeiçoando sua expressão própria e sua simbologia, por meio da modelagem contínua de sua poesia, de onde nascia tudo – ensaio, romance, novela, teatro, desenho, pintura, tapeçaria e iluminogravura, gênero que inventou e que integra poesia e pintura.
Dois autores escreveram trabalhos sobre a poesia de Suassuna. Em 1988, César Leal escreveu um ensaio no qual não só elogia o virtuosismo técnico do autor, mas ainda defende a existência do pessimismo nas suas posições, contrapondo-se à ideia do próprio Ariano, que, na época, se considerava um “otimista trágico”. E, em 1999, Carlos Newton Júnior, na sua dissertação de mestrado, fala de uma visão trágica, dada a partir de três elementos: a morte do pai, o sentimento de exílio e a utopia da redenção.
         Diferentemente do teatro e da prosa, que se desenvolvem com um acento cômico importante, a poesia de Ariano é triste. Mas não acho que ela seja pessimista, embora concorde como apontamento de seu acabamento técnico que, como disse Leal, demonstra ser a poesia um dos objetos de estudos mais incansáveis do autor, ao mesmo tempo em que o insere na tradição poética ocidental. Gostaria de acrescentar, porém, que a poesia popular, em que a poética de Ariano também está alicerçada, tem aspectos formais bem estruturados e conhecidos, e que ele, ao lado do estudo sistemático das estruturas clássicas e medievais da tradição europeia, também se debruçou sobre as formas da tradição popular regional, tornando-se nelas um especialista e usando-as com maestria e criatividade.
Na minha opinião, uma pessoa pessimista não carrega na sua mente e nas suas ações o conflito, o desespero e a esperança, como era o caso de Suassuna. Esta última, por exemplo, é o tema de sua mais bem acabada obra teatral, “A pena e a lei”, que é menos famosa, porém mais profunda, e linda, e coerente, na sua arquitetura cênica e semântica.
Machado de Assis, por exemplo, o mais bem acabado e conhecido pessimista de nossa literatura, foi capaz de escrever: “Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva que o editor dá de graça aos vermes”. Ou seja: Machado, em paz consigo e com o mundo que o cerca, desbanca a vida material e a espiritual, sem dar ao leitor qualquer alento de sentido. Não é o caso de Ariano, cuja aflição existencial apontou a arte e a vida espiritual e teológica como sentidos simbólicos.
Observe-se o soneto “Abertura sob Pele de Ovelha”, de sua autoria:

Falso profeta, insone, Extraviado,
vivo, Cego, a sondar o Indecifrável:
e, jaguar da Sibila – inevitável,
meu Sangue traça a rota deste Fado.

Eu, forçado a ascender, eu, Mutilado,
busco a Estrela que chama, inapelável.
E a Pulsação do Ser, Fera indomável,
arde ao sol do meu pasto – incendiado.

Por sobre a Dor, a Sarça do Espinheiro
que acende o estranho Sol, sangue do ser,
transforma o sangue em Candelabro e Veiro.

Por isso, não vou nunca envelhecer:
com meu Cantar, supero o Desespero,
sou contra a Morte e nunca hei de morrer.

O escritor grego Nikos Kazantzakis tem uma frase que me ajuda a falar do homem bom e de fé aflita que Ariano foi: “Não sei como é a alma de um criminoso, mas a alma do homem honesto, do homem bom é um inferno”. Ou seja: Suassuna não é derrotado pelo pessimismo, antes seu desespero e seu resultado – a arte – vencem o pessimismo, já que propõem um Reino de redenção, nas suas palavras. Confira-se na longa ode filosófica abaixo transcrita:


CARTAS DA INDULGÊNCIA (I) – A Laurenio
“A nós mesmos somos impenetráveis. E o melhor seria
que nos calássemos, esperando que se viesse realizar,
por sobre nossos erros e nossas ilusões, o insubstituível verso:
a nossa transformação em nós mesmos,
a nossa definição pela eternidade.” (Luiz Delgado)

Laurenio, eu pouco sei dos outros homens
e de mim mesmo pouco ou nada sei.
Mas, se nossas palavras,
que passam sussurrando ao som do vento,
contêm algum sentido e algo revelam
da verdade escondida
na combustão ardente e solitária
daqueles que as proferem sob o sol,
entendo que vivemos
de verão a verão sem muito ver.
Somos seres terríveis, majestosos,
mas ainda incompletos,
soltos no seio áspero da terra
em que abrimos primeiro os parcos olhos.
A pedra e a erva ferem-nos
os vacilantes pés e o faro incerto
e o rebanho dos graves animais
parece a nosso grupo
um rebanho tranquilo e condenado
nosso igual por sentença e desventura.
E o tempo vai crescendo:
com ele cresce a carne, unida aos ossos,
cantam sangue e desejo de saber.
Então por entre as árvores,
que, ao sol de teu verão, deixam seus frutos,
procuramos, sem falha de esperança,
aquilo que é sem nome:
um fogo madurado, um  zelo ardente,
capaz ao mesmo tempo de conter
o som das águas mansas,
a pureza dos frutos e dos ares,
o amor – mas em sossego e duração –
e mesmo a voz dos anjos.
Enfim, aquilo que pudesse ser
um apoio, um padrão, um toque, um marco
para aferir no tempo
o dom desconhecido e temeroso.
E dura a busca: os dias se sucedem,
passa o verão e a chuva,
os frutos apodrecem sobre a terra
e dias e estações e frutos novos.
Um dia, enfim, parece
que é chegado o momento do desvelo,
que vai se desvendar todo o segredo:
tudo há de se aclarar,
é tempo de saber e de saciar-se.
Mas esse instante grave e definido
tem tanta força e ardência
que no mesmo momento em que se gera
– forte e temível, medo e descoberta –
o dom amadurece
e o tecido da morte que formava
como que a própria trama da existência,
nesse clarão exato
cumpre o fruto em que tudo se consuma.
Talvez– quem sabe? – só então se possa
ouvir a própria voz
sem ser a medo e clara à mesma carne:
“Eis a terra. A verdade de seu seio.
Seu som íntimo e puro”.
Assim, neste verão em que se cumpre
teu tempo – nascimento e voz da morte –
recebe este meu canto
e, juntos, aceitemos o que é nosso:
cegueira, sede, o cheiro dos roçados,
nosso quinhão de amor,
as pedras esculpidas, mas expostas
ao tempo, como deuses de ninguém,
os detritos dos vivos,
o convívio das bestas e dos homens,
seus muros arruinados, seus transportes,
a herança dos antigos,
um toque de corneta, a brisa fresca,
a água do rio, peixes e metais.
E se esse testamento
parece, antes, legado do infortúnio,
saibamos nos conter, que a própria vida
é, de si, sem apelo,
turva na sua luz pura e selvagem,
áspera e bela como a voz dos homens
ou o hálito das feras
e é mesmo nessa falha que consiste
seu cerne de promessa e conclusão. (1955)

Por outro lado, concordo com Carlos Newton Júnior, quando ele enuncia que, além de triste, como eu disse, a poesia de Ariano tem acentos trágicos. O trágico é sempre elevado e abarca graves questões filosóficas e religiosas, conforme o faz, em sua obra, Suassuna, confesso dilacerado por indagações ontológicas para as quais não há respostas. No entanto, há sempre saídas platônicas, pela beleza, pela esperança, pelo amor, pelo perdão na sua obra, que, ao contrário da dos pessimistas, apazigua e consola. É por isso que Ariano, a partir de certo momento, começou a se definir, corretamente, como “um realista esperançoso”. Em outras palavras: embora veja com nitidez a realidade presente, ele enxerga compensações na lembrança e na esperança.
Aí, chega-se ao conjunto dos elementos que, na opinião de Carlos Newton Júnior, formam esse tom trágico na sua poética: a morte do pai, a sensação de desterro e a esperança de redenção.
O primeiro elemento é biográfico: Ariano perdeu o pai assassinado, de forma particularmente injusta, quando contava apenas três anos de idade. Como tinha uma memória prodigiosa, foi capaz de guardar flashes (para cumprir suas lições, seria melhor dizer “retrolâmpagos”) desse curto período em que conviveu com ele. Confira-se no seguinte soneto:


O REINO – A Morte 
Com tema de Janice Japiassu

Aqui morava um Rei, quando eu menino:
vestia ouro e Castanho no gibão.
Pedra da sorte sobre o meu Destino,
pulsava, junto ao meu, seu Coração.

Para mim, seu Cantar era divino,
quando, ao som da Viola e do bordão,
cantava com voz rouca o Desatino,
o Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu Pai. Desde esse dia,
eu me vi, como um Cego, sem meu Guia,
que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua Efígie me queima. Eu sou a Presa,
ele, a Brasa que impele ao Fogo, acesa,
espada de ouro em Pasto ensanguentado.

O segundo faz parte de suas reações idiossincráticas ao primeiro episódio, já que nem todos os seus irmãos reagiram com esse mesmo sentimento ou pensamento. Observe-o expresso:

SONETO DE BABILÔNIA E SERTÃO 
Com tema de Tupan-Sete

Aqui, o Corvo-azul da Suspeição
apodrece nas frutas violetas,
e a febre-escusa, a Rosa-da-infecção,
canta aos tigres de verde e malhas pretas.

Lá, no pelo de cobre do Alazão,
o Bilro-de-ouro fia a Lã-vermelha.
Um pio-de-metal é o Gavião,
e são mansas as Cabras e as Ovelhas.

Aqui, o lodo mancha o Gato-Pardo:
a Lua esverdeada sai do Mangue,
e apodrece, no Medo, o Desbarato.

Lá, é fogo e limalha a Estrela-esparsa:
o Sol-da-Morte luz no sol do Sangue,
mas cresce a Solidão e sonha a Garça.

Nesse soneto, Suassuna refere, direta ou sugestivamente, a “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, com o uso dos advérbios “aqui” e “ali”; as narrativas bíblicas, por meio dos substantivos “Babilônia” e “Sião”; e clássicas, através da releitura do famoso poema de Camões. Tudo misturado dá ao texto uma amplitude de significados formidável, ainda mais quando se sabe a data em que foi escrito – 1964 – e publicado e republicado, com pequenas modificações – 1969 e 1974 –, quando o país vivia o começo e o acirramento da Ditadura Militar.
E o terceiro traduz as estratégias resilientes que armou para levar a sua vida, apesar do acontecimento trágico e de suas consequências posteriores – perseguições, dificuldades econômicas, experimentação de sentimentos negativos de ódio, desejo de vingança e vitimação.
Nesse contexto, embora muito se fale da presença do pai na obra de Ariano – a qual é uma marca, realmente, inegável –,na minha opinião, invisível, existe também a marca da mãe e sua força nesse último vetor vital que traduz aquilo que Sartre afirma ser o mais importante: aquilo que fazemos com o que é feito de nós. Aliás, o feminino, na obra de Ariano, também se mostra nas referências a sua esposa Zélia, que lhe trouxe, conforme ele confessou várias vezes, um contraponto de resistência ao negativismo com o qual começou a sua trajetória de vida. Inclusive, foi a partir dela que ele iniciou seu processo de conversão ao catolicismo, que é das mais importantes marcas de seu sentir e do seu pensar:

O SOL DE DEUS 
Com Tema de Renato Carneiro Campos

Mas eu enfrentarei o Sol divino,
o Olhar sagrado em que a Pantera arde.
Saberei porque o laço do Destino
não houve que cortasse ou desatasse.

Não serei orgulhoso nem covarde,
que o sangue se rebela ao som do Sino.
Verei o Jaguapardo e a luz da Tarde,
Pedra do sonho, cetro do Divino.

Ela virá – Mulher – aflando as asas,
com o mosto da Romã, o sono, a Casa,
e há de sagrar-me a vista o Gavião.

Mas sei também que, só assim, verei
a coroa da chama, e Deus, meu Rei,
assentado em seu trono do Sertão.

Esse lugar de Redenção – meio sertão, meio passado, meio futuro, meio platônico, meio sonho – é de onde, realmente, Ariano é desterrado. Foi pensando nele, que pôde caminhar, cumprir sua vida e elaborar suas dificuldades. Foi pensando nele que escreveu, ensinou e deu aulas espetaculares, que circulam nos nossos meios mais modernos de comunicação. Foi pensando nele que nos convidou a pensar um país melhor. Foi pensando nele que nos pediu mais atenção à essência. Foi pensando nele que condenou a futilidade... Mais do que nunca, precisamos aprender suas lições, que nos pedem projetos de inserção dos mais pobres e políticos guiados pelo Sonho, iluminados pela Justiça e movidos pelo Diálogo, com maiúsculas, evidentemente, apontando um processo de aproximação com o Absoluto. 

sábado, maio 20, 2017

Para que servem nossas ficções



Recentemente, tenho ouvido argumentações simplistas acerca das ficções e suas funções; tenho até falado em aula e em palestras sobre as funções da arte e da literatura para esclarecer... Porém, às vezes, é um texto escrito que, de verdade, me salva. E salva (e organiza) as minhas ideias.
Penso que, talvez, seja essa ignorância uma consequência da falta de discussão na escola e nas universidades e faculdades sobre o papel das ficções nas nossas vidas – no fim, o que estamos fazendo é reduzindo o currículo escolar a aprendizados técnico-científicos (que são valiosos, é claro), mas que diminuem nossas percepções de outros campos os quais ampliariam nossas visões e nos fariam mais completos.
Diferentemente dos animais, que vivem em apenas um lugar – o peixe vive na água e a girafa, na savana –, nós, seres humanos, vivemos em dois ambíguos “habitats”, o concreto e o abstrato; somos seres biológicos e sociais, se é que essa última palavra nomeia a questão. Recentemente, alguém me disse que um ser humano é feito de células, e eu retruquei:
– Eu pensei que fosse de histórias...
Pois é assim que penso: nossa vida se faz de histórias: as que vivemos, as que contamos e as que nos contam e que se entrelaçam com as nossas e viram nossas, porque nos ajudam a contar as nossas, as que inventamos... Tudo junto nos precipita num processo de produção de pensamentos, saídas, soluções, fugas, reflexões, que transformam essa habilidade num ato final de triunfo da espécie.
Sei que estamos passando por uma crise muito forte e, nesse contexto, tendemos a transformar tudo num túnel sem saída. Porém nossas histórias são um acervo que nos move na direção de soluções e respostas. Desconsiderá-las, portanto, é desconhecer seu potencial de cura.
Sei também que passamos, às vezes, anos em labirintos... Entretanto é exatamente nesses tempos escuros que devemos reobservá-las, reexaminá-las para que, de novo, enxerguemos por onde ir...
Nossas histórias, desde que somos crianças, nos ensinam a lidar com a ansiedade; a suportar obstáculos, enquanto não os anulamos; a pensar os conflitos; a realizar desejos; a sobreviver psiquicamente enquanto caminhamos... Tudo isso vai fazendo a gramática de nossa personalidade e de nosso modo único de ser e ver, enfrentar e suplantar as dificuldades da vida. Com nossas narrativas, trocamos o real impossível pelo possível sonhado, inventado, procurado, encontrado, satisfeito... Por isso, nossas ficções são uma ferramenta para entender os enigmas do mundo, do desejo; os mecanismos do medo e do afeto; as engrenagens da identificação...
Nesse “habitat” social (que é abstrato), inventamos verdadeiras ficções consensuais as quais construíram saltos evolutivos que nenhuma outra espécie deu: na natureza não há nação, dinheiro, justiça, lei, democracia, direitos humanos, amor, casamento, fidelidade... Na verdade, essas “palavras” são fruto de uma ação ficcional que alterou o mundo que nos cerca de forma contundente, o que nos permite acrescentar que nossas narrativas afetam, e muito, a forma como sentimos e agimos historicamente.
Embora eu consiga ver que algumas pessoas sofrem muito – e ficam aprisionadas – quando aderem completamente a essas construções ficcionais compartilhadas (que, em parte, são um engodo coletivo alucinatório a que não podemos colar totalmente), também consigo reconhecer que esse sistema ambíguo é resistente, porque também sustenta alguns de nossos valores, agrega frações de nossa identidade, nos ajuda a construir nossos sentidos e nos humaniza.
A localização no exato ponto cardeal (nem aceitação total, nem negação total) é uma negociação vital que nos acompanha no percurso difícil de sermos seres que falam “duas línguas” – uma concreta, outra abstrata... uma real, outra imaginária... uma individual, outra coletiva...
O desafio é aprendermos o ponto certo em que a escolha não produza sofrimento pessoal desnecessário, nem rupturas e solidões dolorosas. Usando a razão e a sensibilidade, talvez possamos, com o acervo e o preenchimento de nossas ficções, ir ajustando as trilhas de nosso imaginário para que possamos fazer um futuro “que fale a nossa língua”, como diz Mia Couto.
Enfim, nossas ficções não só nos forjam: elas também são ferramentas irrenunciáveis para irmos elaborando passados, suplantando presentes e sonhando futuros melhores. Ou seja: com elas podemos ir adiante sem sair do nosso posto bonito de seres que agem não só pessoal e historicamente, mas também evoluem agônica e coletivamente, apesar das dificuldades...
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A César, que me ajudou a pensar a matéria desse texto.