domingo, junho 18, 2017

Guardando lugar no mês de junho...

sábado, maio 20, 2017

Para que servem nossas ficções



Recentemente, tenho ouvido argumentações simplistas acerca das ficções e suas funções; tenho até falado em aula e em palestras sobre as funções da arte e da literatura para esclarecer... Porém, às vezes, é um texto escrito que, de verdade, me salva. E salva (e organiza) as minhas ideias.
Penso que, talvez, seja essa ignorância uma consequência da falta de discussão na escola e nas universidades e faculdades sobre o papel das ficções nas nossas vidas – no fim, o que estamos fazendo é reduzindo o currículo escolar a aprendizados técnico-científicos (que são valiosos, é claro), mas que diminuem nossas percepções de outros campos os quais ampliariam nossas visões e nos fariam mais completos.
Diferentemente dos animais, que vivem em apenas um lugar – o peixe vive na água e a girafa, na savana –, nós, seres humanos, vivemos em dois ambíguos “habitats”, o concreto e o abstrato; somos seres biológicos e sociais, se é que essa última palavra nomeia a questão. Recentemente, alguém me disse que um ser humano é feito de células, e eu retruquei:
– Eu pensei que fosse de histórias...
Pois é assim que penso: nossa vida se faz de histórias: as que vivemos, as que contamos e as que nos contam e que se entrelaçam com as nossas e viram nossas, porque nos ajudam a contar as nossas, as que inventamos... Tudo junto nos precipita num processo de produção de pensamentos, saídas, soluções, fugas, reflexões, que transformam essa habilidade num ato final de triunfo da espécie.
Sei que estamos passando por uma crise muito forte e, nesse contexto, tendemos a transformar tudo num túnel sem saída. Porém nossas histórias são um acervo que nos move na direção de soluções e respostas. Desconsiderá-las, portanto, é desconhecer seu potencial de cura.
Sei também que passamos, às vezes, anos em labirintos... Entretanto é exatamente nesses tempos escuros que devemos reobservá-las, reexaminá-las para que, de novo, enxerguemos por onde ir...
Nossas histórias, desde que somos crianças, nos ensinam a lidar com a ansiedade; a suportar obstáculos, enquanto não os anulamos; a pensar os conflitos; a realizar desejos; a sobreviver psiquicamente enquanto caminhamos... Tudo isso vai fazendo a gramática de nossa personalidade e de nosso modo único de ser e ver, enfrentar e suplantar as dificuldades da vida. Com nossas narrativas, trocamos o real impossível pelo possível sonhado, inventado, procurado, encontrado, satisfeito... Por isso, nossas ficções são uma ferramenta para entender os enigmas do mundo, do desejo; os mecanismos do medo e do afeto; as engrenagens da identificação...
Nesse “habitat” social (que é abstrato), inventamos verdadeiras ficções consensuais as quais construíram saltos evolutivos que nenhuma outra espécie deu: na natureza não há nação, dinheiro, justiça, lei, democracia, direitos humanos, amor, casamento, fidelidade... Na verdade, essas “palavras” são fruto de uma ação ficcional que alterou o mundo que nos cerca de forma contundente, o que nos permite acrescentar que nossas narrativas afetam, e muito, a forma como sentimos e agimos historicamente.
Embora eu consiga ver que algumas pessoas sofrem muito – e ficam aprisionadas – quando aderem completamente a essas construções ficcionais compartilhadas (que, em parte, são um engodo coletivo alucinatório a que não podemos colar totalmente), também consigo reconhecer que esse sistema ambíguo é resistente, porque também sustenta alguns de nossos valores, agrega frações de nossa identidade, nos ajuda a construir nossos sentidos e nos humaniza.
A localização no exato ponto cardeal (nem aceitação total, nem negação total) é uma negociação vital que nos acompanha no percurso difícil de sermos seres que falam “duas línguas” – uma concreta, outra abstrata... uma real, outra imaginária... uma individual, outra coletiva...
O desafio é aprendermos o ponto certo em que a escolha não produza sofrimento pessoal desnecessário, nem rupturas e solidões dolorosas. Usando a razão e a sensibilidade, talvez possamos, com o acervo e o preenchimento de nossas ficções, ir ajustando as trilhas de nosso imaginário para que possamos fazer um futuro “que fale a nossa língua”, como diz Mia Couto.
Enfim, nossas ficções não só nos forjam: elas também são ferramentas irrenunciáveis para irmos elaborando passados, suplantando presentes e sonhando futuros melhores. Ou seja: com elas podemos ir adiante sem sair do nosso posto bonito de seres que agem não só pessoal e historicamente, mas também evoluem agônica e coletivamente, apesar das dificuldades...
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A César, que me ajudou a pensar a matéria desse texto.

sábado, abril 22, 2017

Os amantes

Em detrimento

da lógica

ela é impelida

a ele

que a armadilha

nos seus braços.



Nada combina

no milímetro

comprimido

entre seus corpos.

(Há em certos amores

essa distância

ambígua

anulada

pelo estatuto

do desejo).



Ela pensava

o medo, o que

não é removê-lo

mas criá-lo.

Ele não teme nada,

nem palavras.



Ela sabia

o pudor

e sua medida

de sussurro.



Ele não se exime

de falar.



Que será

dessa hipótese

improvável

na beira
desse abismo?

segunda-feira, março 20, 2017

Outro idioma - para Diogo



“A violência, seja qual for a maneira como ela
se manifesta, é sempre uma derrota.” (Jean-Paul Sartre)

Cada um
guarda
uma palavra
exclusiva.

Ela dilata a memória;
legitima a vida;
alcança o futuro...

Como a pérola
daquela ostra
pousada
no fundo
do mar,
ela é o que somos...
E está sempre lá...

Entre tantas
é difícil
escolhê-la:
ao som do mundo...
e muitas vendas...

As coisas
também atrapalham...
Os sentidos
são cegos...

Fecha os olhos...
Sente
na veia
esse sopro
e seu passo sutil...
que carrega
outras perguntas...
outras respostas...

Escrito noutra língua,
esse vulto
espera só tradução...

Sua forma tênue
exigirá
que a pegues
com cuidado
nunca exercido...

Articulada,
essa palavra
será triunfo
e farol!

sábado, fevereiro 18, 2017

Democracia e outros desacertos brasileiros



Já falei de democracia, há alguns anos, neste blog, quando ele sofreu sistemática invasão de uma pessoa que me atingia profissional e pessoalmente com comentários anônimos. Hoje, volto ao assunto para defender Raduan Nassar, quando da outorga do prêmio Camões com que foi agraciado em maio de 2016.
            Raduan Nassar é um escritor pouco profícuo, mas a densidade de sua obra alcançou a admiração de milhares de pessoas, inclusive do júri do concurso, que destacou “a extraordinária qualidade de sua linguagem e a força poética de sua prosa”. É evidente que um escritor com a sua profundidade intelectual não fala sobre o que todos querem ouvir – ele fala sobre o que quer, sobre o que é preciso, ou mesmo não fala, como, de resto, é o que acontece na maior parte do tempo com ele próprio: vive numa fazenda, no interior de São Paulo, muito recluso, o que, no seu caso, não significa omisso.
            É que há algum tempo doou outra fazenda ao Estado brasileiro, com a única exigência de que fosse usada para fazer um campus agrícola em que se estudassem técnicas de cultivo sustentáveis das lavouras da região. Essa doação, na verdade, mudou o entorno social da área, dando oportunidades de ensino superior a filhos de trabalhadores rurais e até a índios, que estão “fazendo a diferença” quando se observa a questão do acesso à renda naquela parte do país.
Lembrando Paulo Freire, que certa vez disse que a pobreza rural tinha ligação não só com a falta de acesso à terra, mas também com outros “arames farpados”, como a falta de acesso à técnica, não posso deixar de admirar o que, sob a batuta de Raduan, está se fazendo naquela região.
Compreende-se, perfeitamente, a partir dessa narrativa, de que lado o escritor se encontra: ele é a favor de melhor distribuição de terra, de renda, de conhecimento e de técnica no Brasil e no mundo. E seu posicionamento não fica apenas no discurso: estende-se à ação coerente e corajosa de quem é capaz de tirar da própria carne para ver mais igualdade ao redor.
Pois bem: aos quase 82 anos, lúcido e tímido como poucos, no dia da entrega do prêmio, denunciou a situação sombria em que o Brasil está, na sua opinião: invasão de espaços, repressão e prisão dos mais fracos, violência contra manifestações populares, supressão de direitos, ameaça a universidades públicas e escolas, tudo com a anuência de instituições que deveriam resguardar o direito e o bem de todos.
Acusado de histriônico, foi, na verdade, discreto, tanto nos gestos quanto nos trajes. Mostrou-se, no entanto, contundente nas palavras, como acontece com a maioria dos escritores, cidadãos que dizem o que tem de ser dito, possa parte da população ouvir ou não. Confesso que admiro o “conjunto da obra”, como muito se tem dito – gostei do que ele fez, democratizando o tanto de tecido social que estava a seu alcance, e mais ainda admirei o fato de ele ter enunciado no discurso o que já havia realizado na prática. Não é todo dia que a gente testemunha coerência neste país...
Tenho conversado muito com meus alunos sobre a função do escritor neste mundo globalizado, que enxerga tudo através da técnica e da ciência, em detrimento das ciências humanas, ou nesses tempos cegos e difíceis que nos couberam (como acontece com todos os seres humanos, no fim das contas) e agradeci as palavras de Raduan Nassar – ele falou o que precisava falar ou o que quis falar, independentemente do que algumas pessoas ou o governo queriam ouvir; tornou audíveis as palavras de quem também está nas ruas, mas não sai nas manchetes; criticou instituições, como se costuma fazer, impunemente, numa democracia orgulhosa do que é; usou um momento de exposição pública para colocar sua posição política clara e coerentemente; como cidadão, agiu de forma legítima, pois qualquer um pode expor seus pontos de vista no Brasil, inclusive quem não tem o que dizer ou quem espalha preconceito, desavença e ódio. Não é o caso de Raduan Nassar, cuja lucidez merece atenção, cuja idade merece respeito e cuja biografia legitima seu direito imperioso de expressão.
Além disso, não foi o governo que o premiou; foi o Estado de Portugal e foi o Estado do Brasil. Portanto, o argumento de que ele não deveria ter aceitado o prêmio, já que tinha críticas ao governo, além de deselegante, é estapafúrdio e, infelizmente, confirma o que ele falou. Ou seja: que pairam ameaças, hoje, ao Estado de Direito no país.
Não há defesa possível contra as palavras de ministros e de outros cidadãos que o acusaram, durante a cerimônia ou depois dela, de expressar pontos de vista partidários os quais, mesmo que tivessem sido enunciados, ainda assim poderiam ter sido externados. Mas é mais ridículo ainda imaginar que não fossem seus de verdade: seu estofo intelectual e sua trajetória coerente garantem a exclusividade de suas interpretações e de sua visão de mundo.
Obrigada, Raduan Nassar. Você me fez pensar na democracia que quero, no país com que sonho, na função do escritor em tempos de cólera e de cegueira, no próximo mais fraco e naquilo de que, realmente, preciso para ser uma pessoa de verdade. Obrigada também ao resto das pessoas que me mostram que, como disse o escritor, “não há como ficar calado”.